Vôo
United 93 recria com veracidade os últimos momentos dos passageiros
de um dos aviões seqüestrados no 11/9
Apesar de ter ocorrido há mais de cinco anos, o 11 de setembro
ainda está muito forte na memória dos norte-americanos. Enquanto
alguns comemoravam o seqüestro de quatro aviões por terroristas
muçulmanos, outros choravam pela perda de milhares de vidas.
Esse ano, o cinema parece estar pronto para tocar nas feridas,
e Vôo United 93 é um desses veículos.
O filme conta
a história do único avião, entre os quatro seqüestrados, que
não conseguiu alcançar o seu objetivo: atingir a casa branca,
símbolo do poder político norte americano.
A produção,
que tinha todos os elementos para se tornar patriota, surge
como um retrato fiel do acontecimento. A direção de Paul
Greengrass se limita a acompanhar as últimas horas
de vida dos passageiros sem apelar para o sentimentalismo.
Funcionando praticamente como um pseudo-documentário, o clima
tenso e claustrofóbico impera na maior parte da produção.
Esse, talvez,
seja o maior acerto de Greengrass. Sua câmera inquieta, que
não foca em apenas um passageiro e que se move bastante em
cenas de ação, funciona como uma ponte entre o espectador
e o filme, aumentando a participação da platéia a fim de se
obter uma torcida pela vida daquelas pessoas, mesmo que todos
saibam o trágico desfecho que as espera.
A preocupação
com a realidade foi tamanha que algumas medidas soariam excêntricas
em uma primeira análise, mas quando se analisa melhor percebe
os verdadeiros motivos. Por exemplo, no início do filme vemos
verdadeiros controladores de tráfego aéreo. Contratados para
dar mais veracidade ao filme, há a presença de controladores
da Força Aérea Americana e controladores civis. O diretor
insistiu, também, para que os passageiros, tanto os seqüestrados
quanto os terroristas, fossem mantidos em hotéis diferentes,
para que na hora em que se encontrassem, se sentissem mais
unidos, como um grupo lutando por ideais diferentes: a crença
e a sobrevivência.
Como não houve
nenhum sobrevivente, todo o roteiro e caracterização dos personagens
surgiram graças a depoimentos dados pelas famílias das vítimas
e declarações dos controladores aéreos. Sem se preocupar em
apontar heróis, o cineasta prefere mostrar atitudes de pessoas
que lutariam pela própria sobrevivência em uma situação desesperadora.
O realismo é tamanho, que é bem provável que tenha acontecido
exatamente dessa forma.
Criado com
irrisórios 15 milhões de dólares, quando comparado a grandes
produções americanas, Greengrass prova que sabe fazer muito,
com tão pouco. Vôo United 93 não é apenas uma recriação
do ato terrorista mais conhecido no mundo, como também uma
lembrança da fragilidade e vulnerabilidade da sociedade diante
situações terroristas ou acidentais.
Vôo
United 93
United 93
EUA, 2006
Drama
(por Marco Paiva em 2006)
Direção:
Paul Greengrass Roteiro: Paul Greengrass
Elenco:
Christian Clemenson, Trish Gates, Polly Adams, Cheyenne
Jackson, Opal Alladin, Gary Commock, Nancy McDoniel,
David Alan Basche, Richard Bekins, Susan Blommaert,
Ray Charleson