O perigo mora ao lado

Para se redimir do fracasso de Amaldiçoados, Wes Craven permeia a sua mais nova produção com terror psicológico


Wes Craven é um diretor que dispensa apresentações. Enquanto o clássico A Hora do Pesadelo e a trilogia Pânico fazem parte do seu currículo, outras criações, como Amaldiçoados, mancham a sua reputação. A sua mais nova obra, Vôo Noturno, mostra que não é preciso sangue e nem gritaria para criar tensão no espectador. Toda a trama do filme é de natureza psicológica. A sensação de claustrofobia que o filme transmite para o público é tamanha, que Craven ainda consegue aperfeiçoar essa impressão com diversos enquadramentos fechados que aumentam o efeito de estar preso.

Lisa Reisert, interpretada por Rachel McAdams, é uma gerente de hotel que está voltando para casa no vôo noturno (o título do filme é Red Eye, pois é o nome que os americanos dão a esse vôo). Enquanto espera para embarcar, Lisa conhece Jackson Rippner e ambos conversam durante um tempo. A coincidência é tamanha, que os lugares dos dois são lado a lado. Porém, o que a jovem workaholic não esperava é que Jackson a usaria para seu próprio objetivo: fazer com que ela trocasse os quartos do Secretário de Segurança para matá-lo com um ataque terrorista. Para ameaçar a garota, caso ela não concorde com o desejado, Jackson usará o pai da menina como refém.

Rachel, que é especialista em participar de produções românticas como Diário de Uma Paixão, e de comédias como Meninas Malvadas, prova a sua versatilidade e consegue recriar muito bem o terror que sua personagem sente. Lisa não sente medo apenas de Jackson, mas também do ambiente sem saída que se encontra. Como ela vai conseguir fugir? Como adiar esse sofrimento? Esse é que é o fio condutor da história. Cillian Murphy, o intérprete do terrorista, consegue transmitir ameaça apenas em seu olhar, intimidando o espectador e fazendo com que ele tome precaução para com as novas ações de Jack.

As situações que o roteiro aborda são outros pontos positivos para o filme. Os diálogos trocados entre os protagonistas são inspirados e ajudam a construir um clima de tensão. Graças a eles é que podemos notar que, com o desenrolar do filme, é travada uma verdadeira guerra psicológica.

Outro sucesso da produção foi a inclusão de outros passageiros coadjuvantes. Assim, quando a câmera dirige o foco para eles, é subentendido que algo irá acontecer para atrapalhar a situação da gerente. Um mecanismo que atende as expectativas da platéia, aumentando a esfera de suspense. Além de servir como um alívio cômico em algumas partes do longa.

O único ponto negativo que Vôo Noturno sofre é em seu clímax. Apesar de ser aceitável e condizente com o resto da história, ele poderia ter sido melhor elaborado. Seria mais interessante se ele fosse feito ainda no vôo. Mas a pior parte mesmo está na frase final que além de ser ridícula, termina o filme com um corte bruto e desnecessário.

Porém, ao equilibrar a balança, o resultado é satisfatório. Vôo Noturno consegue se firmar como um bom thriller da atualidade. Mais desenvolvido, com uma boa premissa, e mais original que tantos outros trabalhos recentes. O filme mostra que o maior perigo de um avião, não está nas turbulências, ou em asa quebrada, ou problemas no motor. E sim, na cadeira ao lado.

Vôo Noturno
Red Eye

EUA, 2005
Suspense

(por Marco Paiva em 2005)

Direção: Wes Craven
Roteiro: Carl Ellsworth

Elenco:
Lisa Reisert (Rachel McAdams)
Jackson Rippner (Cillian Murphy)
Pai da Lisa (Brian Cox)
Cynthia (Jayma Mays)
Bob Taylor (Robert Pine)
Charles Keefe (Jack Scalia)

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