Um desejo de vida

Drama de Felicity Huffman ganha força pelas profundas análises psicológicas de personagens que, excêntricos a primeira vista, se assemelham à sociedade atual


Bree é uma transexual, outrora conhecida por Stanley, que dará o último passo para poder tornar-se a mulher que sempre sentiu ser. Quando descobre ter um filho de 17 anos, Bree é pressionada por sua psicóloga a ir ao encontro de seu primogênito. Quando o encontra, ela evita contar a verdade e acaba decidindo leva-lo para Los Angeles, onde ele terá melhores oportunidades de emprego. Durante essa viagem, ambos terão que conviver com sérios dilemas da realidade social, o que poderá mudar suas vidas.

Essa é a história do road movie americano Transamérica, dirigido pelo estreante Duncan Tucker e estrelado pelos ótimos atores Felicity Huffman, da série Desperate Housewifes, e Kevin Zegers, de Madrugada dos Mortos. O filme, escrito também por Tucker, segue o estilo dos outros filmes também indicados ao Oscar: consegue contar uma simples história familiar, mas que possui elementos que evidenciam uma forte crítica social.

O primeiro de muitos pontos positivos do filme é a atuação de Huffman (indicada ao Oscar). Utilizando exercícios vocais para aproximar a sua voz da de um homem, a atriz consegue incorporar o personagem, optando por agir de maneira contida e introvertida a fim de não atrair atenções que poderiam revelar verdadeira natureza de Bree.

Inclusive, a tarefa de ir atrás do seu filho a incomoda, não pelo fato disso poder atrapalhar a realização de sua cirurgia, mas sim, por ter a certeza de que a sua identidade masculina jamais será definitivamente apagada. Stanley, seu antigo nome, estará vivo na figura do filho não importa quantas cirurgias forem feitas, e Bree reconhece isso. Seu choque, quando percebe que ele possui uma foto de Stanley, concretiza a idéia de que, por mais que você tente esconder o seu passado, ele sempre denunciará a sua verdadeira personalidade – que causa repulsa a Bree, pelo simples ato de falar sobre ela.

Outro grande achado do filme é o roteiro de Tucker, que prima pela dimensão que as relações familiares ganham com o decorrer do filme. Viajando pelo país, o filme expõe personagens de diferentes origens. Há o descendente indiano que valoriza as relações humanas; os conhecidos de Bree que, ao contrário dela, não se incomodam em mostrar a alegria com que aceitam a sua nova identidade; e os conservadores pais da protagonista que apontam a sua posição contra a decisão de Bree, mas que a acolhem quando descobrem seu novo neto.

A relação entre Bree e seu filho Toby (Zegers) é um fator à parte em Transamérica. Por ter aceitado participar de filmes gays, Toby pode parecer não saber qual é a sua verdadeira natureza. Mas o que ocorre não é uma atração por pessoas do mesmo sexo, e sim por pessoas que lhe mostre algum tipo de afeição, seja homem, seja mulher. Por ter sido molestado por seu pai, o garoto necessitava o amor de alguém, e o carinho que Bree oferece a ele, acaba suprindo suas necessidades. O discurso entre os dois no terceiro ato comprova essa teoria.

Retratando um dos estilos de vida que é depreciado pela sociedade, Transamérica prima por não se limitar a revelar a vida dos transexuais. O desejo que eles possuem de ser respeitados pela sociedade e bem recebidos pela família é o que caracteriza a produção como um dos melhores longas de relacionamentos, tanto entre homens, quanto entre mulheres.

Transamérica
Transamerica

EUA, 2005
Drama

(por Marco Paiva em 2006)

Direção: Duncan Tucker
Roteiro: Duncan Tucker

Elenco:
Bree Osbourne (Felicity Huffman)
Toby (Kevin Zegers)
Elizabeth (Fionnula Flanagan)
Margaret (Elisabeth Peña)
Calvin (Graham Greene)
Murray (Burt Young)
Sydney (Carrie Preston)

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