Western
gay de Ang Lee comprova que não há limitações para o amor
Existem diversos tipos de filmes no mundo da sétima arte.
Para citar alguns exemplos, temos aqueles filmes comerciais,
feitos com o único intuito de entreter o público. Ao mesmo
tempo, porém, existem aquelas produções que induzem o espectador
a refletir, pensar sobre um determinado assunto, quer seja
atual ou não. E esse é o melhor do cinema. Não há só entretenimento,
mas há também informação e consciência. Infelizmente, nem
todos vêem com bons olhos esse prestígio do cinema, e muito
raramente presenciam esse estilo de denúncia social. O jeito
para chamar atenção do grande público, então, é fazendo polêmica.
E é exatamente aí que se encaixa O Segredo de
Brokeback Mountain.
Sendo feito
há quase uma década, o filme conseguiu espaço no Festival
de Veneza. Foi tão aclamado por todos que saiu de lá com o
prêmio principal, o Leão de Ouro. Daí em diante não se ouve
em outra coisa além desse novo trabalho de Ang Lee.
A produção ganhou quatro Globos de Ouro e o prêmio do Writers
Guild of America (WGA) de Melhor Roteiro Adaptado. Além disso,
o filme recebeu quatro indicações ao Spirit Awards, nove indicações
ao Bafta, oito indicações ao Oscar e muitos outros prêmios
importantes.
Mas por que
um romance gay foi tão aplaudido pela crítica? Pelo simples
motivo de não se tornar apenas um romance gay. Revelando-se
um filme simples e humano, a produção consegue cativar toda
a audiência. Servindo como um pequeno passo para uma luta
contra o preconceito.
Em busca de
um emprego, Ennis Del Mar (Heath
Ledger) e Jack Twist (Jake
Gyllenhaal) começam a trabalhar juntos em uma área
isolada, mais especificamente, a montanha Brokeback. Cuidando
de ovelhas durante vários meses, ambos começam a criar uma
relação de amizade que, com o passar do tempo, se torna algo
mais firme e concreto, como uma verdadeira relação amorosa.
Depois de passarem uma noite juntos, eles tentam esquecer
o acontecido e passam alguns anos sem se ver.
Os dois iniciam
relações heterossexuais e acabam se casando e tendo filhos.
Ennis se casa com Alma (Michelle
Williams), e Jack, com Lureen (Anne
Hathaway). Entretanto, os vaqueiros conseguem se
reencontrar e, a partir deste momento, começam a marcar outros
encontros, sempre na montanha Brokeback.
Livre de qualquer
estereótipo, os protagonistas não demonstram nenhum maneirismo,
ou gestos afeminados. Pelo contrário, a figura de cowboy é
a que prevalece. Ledger encarna, com uma total eficiência,
uma pessoa séria e introvertida. Atribuindo pequenas sutilezas,
como aquela face sempre fechada e rancorosa, o ator consegue
transmitir ao espectador a sua situação desconfortável. Quando
vê Jack, ele se sente mais disposto e sua feição muda completamente.
Porém, é exatamente essa atitude que ele condena. Seus sentimentos
por um homem jamais poderiam ser aqueles, ainda mais em uma
cidade conservadora. Por isso, Ennis evita ao máximo os encontros,
temendo um possível julgamento da sociedade, o que acaba fazendo-o
reprimir ainda mais seus verdadeiros sentimentos.
Se Ledger adota
o caráter de uma pessoa tímida, Gyllenhaal compõe um personagem
de atitude oposta. Mais extrovertido que seu companheiro,
Jack mostra que sua porção passiva não reside apenas em suas
relações sexuais com Ennis. Quando se casa com Lureen, fica
bem claro que, enquanto ela toma conta da empresa da família,
ele fica um cargo abaixo, em nível subalterno - no caso, como
um vendedor dessa empresa automobilística. Isso também pode
ser aplicado em outros momentos como aquele em que Jack faz
pequenos favores para o seu sogro.
Mas o elenco
feminino também possui muita força. Michelle consegue uma
atuação brilhante como a mulher traída. Ao descobrir o envolvimento
de seu marido com outro homem, a atriz evita utilizar meios
mais drásticos para a construção da tristeza de sua personagem
(como provavelmente aconteceria em outro projeto), e adota,
então, uma atitude mais impassível em alguns momentos do longa.
Mas quando é necessário demonstrar o seu sentimento de menosprezo,
Michelle prova que é bastante competente. Basta conferir a
cena em que o casal conversa sobre esse assunto.
Outra grata
surpresa é a atuação da, geralmente limitada, Hathaway. Sua
personagem não possui muitos momentos dramáticos. Mas a seqüência
mais dramática que participou, uma conversa ao telefone com
Ennis, se tornou em uma das melhores passagens da produção
graças a força e talento dos dois atores. Destaca-se também
a performance de Randy Quaid que interpreta
o chefe dos vaqueiros.
O filme só
falha em algumas passagens desnecessárias, como aquela do
jantar na casa de Lureen, ou a conversa melodramática com
os pais de Jack. Outra parte negativa é a fala final, que
deixa algo no ar sem explicar o porquê dela.
Contando com
uma direção cuidadosa e uma excepcional trilha sonora de Gustavo
Santaolalla, O Segredo de Brokeback Mountain
é uma verdadeira comprovação de que o amor entre pessoas do
mesmo sexo pode ocorrer. Mesmo que parte das pessoas não queiram
que isso aconteça.
O
Segredo de Brokeback Mountain
Brokeback Mountain
EUA, 2005
Drama
(por Marco Paiva em 2006)
Direção:
Ang Lee Roteiro: Larry McMurtry e Diana Ossana
Elenco:
Ennis Del Mar (Heath Ledger)
Jack Twist (Jake Gyllenhaal)
Alma (Michelle Williams)
Lureen (Anne Hathaway)
Joe Aguirre (Randy Quaid)
Cassie Cartwright (Linda Cardellini)
LaShawn Malone (Anna Faris)