Jogada decisiva

Com seu novo filme, Woody Allen consegue fugir das decepções de suas recentes produções e prova que consegue ser, até mesmo, um mestre do suspense


É raro ver Woody Allen rodando filmes fora de sua querida Manhattan. Ainda que tenha mudado de ares em algumas obras, o cineasta é marca registrada de Nova York. Quando foi anunciado que a sua mais nova obra seria ambientado em Londres, todos se surpreenderam. Entretanto, bastava alguma coisa para Allen voltar aos seus velhos tempos. Obras como Igual a Tudo na Vida, Dirigindo no Escuro e Trapaceiros não faziam jus ao diretor cheio de neurose. Permeadas por lugares-comuns, suas recentes produções amargavam fracasso de crítica e público. Allen decidiu, então, inovar. Mudando de gênero, lugar e, até mesmo, distribuidora, o cineasta apresenta Ponto Final – Match Point, seu suspense dramático com toques de cinema noir. E prova que, quando quer, Allen sabe utilizar seu talento.

O filme conta a história do irlandês Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers), ex-jogador de tênis profissional que começa a dar aulas em um clube da alta sociedade. Com o tempo, ele cria amizade com um de seus alunos, o rico Tom Hewett (Matthew Goode), que, após fazerem várias atividades juntos, apresenta a ele sua família. Não passa muito tempo, e o tenista e a irmã de Tom, Chloe (Emily Mortimer), começam a namorar. Sua vida melhora: começa a trabalhar na empresa do sogro, visita lugares elitizados, entre outras coisas.

Porém, basta conhecer a sensual Nola Rice (Scarlett Johansson), que o jovem já se apaixona. Mas para complicar, Nola é noiva de Tom. Partindo da tese de que tudo que é proibido é mais gostoso, Chris se envolve secretamente com sua cunhada e começa a destruir sua vida apenas pelo prazer de sua companhia.

É inevitável a comparação de Ponto Final – Match Point com Crimes e Pecados: ambos falam sobre adultério, amor, luxúria, assassinatos e gravidez. Entretanto, a presença verborrágica de Allen ocorre somente no longa de 1989, o que traz mais força para sua produção britânica. O filme não é como suas outras obras em que cita e comenta as neuras da sociedade atual. Ponto Final – Match Point é mais audacioso, mais dramático e mais envolvente. Aqui, Allen se limita a observar as dubiedades de seus personagens – sem verbalizar nada.

Chris é um dos personagens que apresenta mais curiosidades no seu comportamento. Por exemplo, em um momento do longa, o protagonista aparece lendo diversos livros de Dostoievski, entre eles, Crime e Castigo. Mas depois percebemos que a sua leitura não se deve somente ao fato de ampliar o seu conhecimento cultural, e sim com algo muito mais promissor para o seu ego: impressionar seu sogro ao mostrar inteligência e conhecimento sócio-cultural. Outro exemplo também poderia ser quando menciona o fato que gostaria de ter mais alunos. Quando lhe é oferecido uma ajuda financeira, este logo recusa, deixando no ar somente um desejo de trabalhar mais. Tudo muito sutil, muito perspicaz, digno de um hábil Allen.

As atuações também são dignas. Scarlett Johansson, injustamente esquecida no Oscar, brilha como a femme fatale Nola. A atriz americana consegue misturar, com muita eficiência, sensualidade com insegurança. Em algumas passagens, ela mostra ter reconhecimento de seu charme e de sua beleza, mas sempre que se encontra com Chris, Nola adota uma atitude mais esquizofrênica e fora de si. Mesmo quando pensa em se controlar, a personagem perde as rédeas da situação e foge do bom-senso. Perceba quando ela flagra uma mentira do protagonista. Ao telefonar para ele, Nola se apresenta mais contida. Mas basta encontrá-lo pessoalmente que ela foge de seu próprio controle.

Até os personagens mais coadjuvantes tem boas atuações, Emily Mortimer convence no papel da “agradável” Chloe, e Mathew Goode demonstra ser um carismático esnobe britânico. Infelizmente, o ator mais fraco do grupo é justamente o protagonista. Apesar de possuir um desempenho decepcionante, sua atuação não chega a danificar o potencial do filme.

Por isso que não é aconselhável subestimar a capacidade de Woody Allen. Mesmo quando apresenta decepcionantes produções seguidas, ele tem o poder de agraciar o público com uma de suas melhores produções – talvez até mesmo a melhor.

Ponto Final - Match Point
Match Point

Inglaterra/EUA, 2005
Drama/Suspense

(por Marco Paiva em 2006)

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen

Elenco:
Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers)
Nola Rice (Scarlett Johansson)
Chloe Hewett (Emily Mortimer)
Tom Hewett (Mathew Goode)
Eleanor Hewett (Penelope Wilton)
Detetive Banner (James Nesbitt)

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