Os obstáculos do amor

Romance sobre o clássico de Jane Austen não se reinventa, mas prima por manter a visão irônica e crítica da autora


Tocar em clássicos da literatura mundial, sempre foi um impasse nas realizações de adaptações de livros de sucesso. É claro que não seria diferente com o clássico da escritora Jane Austen. Famosa por retratar as relações humanas sem pudor, a autora lançava o seu olhar crítico sobre os costumes e as relações humanas em uma sociedade conservadora que teme um pré-julgamento, criado, muitas vezes, por ela mesma.

Entretanto se formos analisar esse lado em Orgulho e Preconceito, a produção não é merecedora dos adjetivos “ousada” e “inovadora”. A comportada versão de Austen deixa de lado essa marcante característica da autora e opta por aprofundar em uma outra questão: a sociedade que prima mais o status social do que o caráter e integridade de uma pessoa – fato que é contemporâneo para todos. Através desse tema, o longa não traz nada novo, mas também não decepciona.

O grande atrativo do filme é a atuação dos atores e a direção segura e romanceada do diretor Joe Wright. Aliás, essa é uma das maiores surpresas da película. Wright tem noção de que tem pouco tempo para transmitir a extensa história de Austen. O que ele faz, então, é dar atenção a diversos personagens ao mesmo tempo para não deixar a narrativa cansar. Observe, por exemplo, o que ocorre em um dos bailes do longa. Depois de observar como cada personagem se comporta na festa, ele direciona a câmera para a protagonista a ponto de ouvir seu comentário irônico: “A minha família está em uma competição para ver quem se expõe mais ao ridículo”. Uma estratégia hábil e inteligente de Wright.

O filme conta a história de Elizabeth Bennet (Keira Knightley) e suas quatro irmãs: Jane, Mary, Lydia e Kitty. Graças ao poder casamenteiro de sua mãe, a jovem acaba conhecendo o Sr. Darcy (Matthew MacFayden). Rico, bonito e polido, a mãe até menciona um futuro casamento entre os dois, mas Elizabeth logo recusa, justificando que o rapaz é desagradável e orgulhoso demais. Daí em diante, surge aqueles desencontros tão tradicionais do romance – mas criados por Austen como ninguém – que vão resultar nos clássico discursos capazes de arrancar uma singela lágrima até mesmo do espectador mais contido.

A indicação de Keira ao Oscar foi uma justiça que não ocorria há tempos: o reconhecimento merecido de uma atriz que deixa registrado aqui, assim como em suas outras produções, a marca definitiva de uma carreira em ascensão. Deve-se destacar, também, as atuações do estreante MacFayden e a de Donald Sutherland como o calmo e tranqüilo Sr. Bennet, pai de Elizabeth. Nem mesmo Judi Dench decepciona com o seu habitual papel de “burguesa arrogante”.

Com toques de superprodução de época, Orgulho e Preconceito é daqueles filmes que não adicionam nada ao gênero e não se inovam. Entretanto, ele ganha pontos por manter a acidez de Austen enquanto cria uma adorável história de amor.

Orgulho e Preconceito
Pride and Prejudice

EUA, 2005
Romance

(por Marco Paiva em 2006)

Direção: Joe Wright
Roteiro: Deborah Moggach

Elenco:
Elizabeth Bennet (Keira Knightley)
Jane Bennet (Rosamund Pike)
Lydia Bennet (Jena Malone)
Mary Bennet (Talulah Riley)
Kitty Bennet (Carey Mulligan)
Sr. Bennet (Donald Sutherland)
Sra. Bennet (Brenda Blethyn)
Sr. Darcy (Matthew MacFayden)
Sr. Wickham (Rupert Friend)
Sr. Collins (Tom Hollander)
Lady Catherine de Bourg (Judi Dench)

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