A magia do desespero

Fábula adulta de Guillermo del Toro impressiona pela violência que transita entre a fria realidade e a cruel fantasia


Se eu tivesse que responder a uma pergunta sobre qual seria o gênero cinematográfico que mais gosto, a resposta seria: drama. Filmes que me comovem, que mexam com meu emocional, sempre me conquistaram – subentenda-se que eu me refiro aos bons exemplares deste nicho, é claro. Alguns são engajados, outros não, mas basta me emocionar para que eu já o veja sob uma perspectiva diferente. Com O Labirinto do Fauno não foi diferente. A visão cruel e realista que o cineasta Guillermo del Toro utilizou para narrar a história da pequena Ofélia (Ivana Baquero) é tão interessante, que é capaz de cativar até aqueles que não são fãs do gênero em questão.

Na Espanha da década de 40, o regime nacionalista de Francisco Franco, o pior ditador espanhol e um dos piores do mundo, está em ascensão. Procurando maior segurança, uma mãe enferma e sua filha se mudam para uma fazenda-quartel comandada pelo temível Capitão Vidal (Sergi López). Jogada em um ambiente violento e frio, a menina procura refúgio nos livros. Envolvida em uma fantasia cada vez mais real, Ofélia encontra um fauno que lhe impõe uma série de provas peculiares para que, no fim, ela possa voltar ao reino subterrâneo, do qual é uma princesa.

Libelo contra o fascismo, a produção deve muito do seu potencial às atuações viscerais do seu elenco. Maribel Verdú incorpora Mercedes com muita competência: a obediência que obedece a Vidal e a determinação com que se vinga dele para salvar seu irmão, podem ser classificadas como atitudes maternais extremistas. Já aqueles momentos em que oferece proteção à Ofélia, há ternura e afeto. Portanto, Mercedes age como se soubesse da apatia da mãe perante aquela situação e resolve fazer algo. Sergi López, outro brilhante ator, faz maravilhas com seu personagem. López personifica Vidal com tamanho talento que consegue atravessar, com sucesso, a tênue linha que separa o real do estereótipo, se mantendo fiel ao texto. Enquanto isso, Ivana Baquero, mesmo não tendo a experiência que seus parceiros de cena tem, prova que pode ir muito longe. As cenas em que resolve comer a uva e todo a sua batalha durante do terceiro ato final são impecáveis.

Contudo, não se pode limitar os elogios do filme às atuações. Guillermo prova o seu talento e é responsável por tomadas excelentes, como aquela em que coloca uma lareira contornando Vidal, explicitando sua natureza demoníaca. Interessante notar também as medidas que del Toro utiliza para expor a crueldade do ambiente. O cineasta não hesita em mostrar seres sendo engolidos, cortados e mortos – e quando o faz, transmite uma sensação de agonia e aflito, como na sádica cena em que Vidal assassina camponeses.

Portanto, é por meio de uma direção inspirada, excelentes atuações e efeitos visuais impecáveis, como maquiagem e direção de arte, que O Labirinto do Fauno prova ser um dos melhores filmes do ano e certamente, o mais cruel deles.

O Labirinto do Fauno
El Laberinto del Fauno

México/Espanha, 2006
Drama/Fantasia

(por Marco Paiva em 2007)

Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro

Elenco:
Ivana Baquero (Ofelia)
Doug Jones (Fauno / Homem pálido)
Sergi López (Capitão Vidal)
Ariadna Gil (Carmen)
Maribel Verdú (Mercedes)
Álex Angulo (Médico)
Roger Casamajor (Pedro)

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