A África da vida real

Filme de Fernando Meirelles é inteligente e cheio de crítica social, mas como adaptação o filme é decepcionante


O sucesso que o cineasta Fernando Meirelles ganhou após dirigir Cidade de Deus foi o suficiente para que ele começasse sua carreira internacional. Portanto, foi uma escolha bastante plausível ele optar por trabalhar com produtores ingleses, sem aquela pressão hollywoodiana, atores egocêntricos ou filmes formulaicos. E o tema do filme ainda faz parte da marca registrada de Meirelles: denunciar as feridas da sociedade. O filme, adaptado do romance escrito por John Lê Carré, é considerado pelo autor como a melhor recriação de suas obras. Mas infelizmente isso não quer dizer que o filme seja um dos melhores do ano. O problema deste filme é justamente a sua fidelidade excessiva.

A história de O Jardineiro Fiel se resume na trajetória de Tessa (Rachel Weisz), uma fervorosa ativista e esposa de um diplomata inglês. Com a ajuda do médico Arnold Bluhm, ela se dispõe a investigar feitos da poderosa companhia Three Bees que, supostamente, usa os habitantes africanos como cobaias de um experimento contra uma poderosa tuberculose. Entretanto, essa pesquisa resulta na brutal morte da ativista. A partir daí, seu marido britânico, Justin Quayle (Ralph Fiennes), resolve averiguar os detalhes da investigação de sua esposa, iniciando uma viagem ao redor de três continentes.

Meirelles refez sua parceria com o diretor de fotografia César Charlone que havia feito um excelente trabalho no famoso filme brasileiro, cujo lhe rendeu até uma indicação para o Oscar. O visual do filme intercala momentos de extrema pobreza com admiráveis monumentos naturais. Inclusive, há mais um clima de documentário que a própria ficção do filme. A câmera nervosa, que parece estar sempre apressada, auxilia neste clima de crítica engajada. Ela age como uma ponte entre platéia e personagem, contribuindo no envolvimento do espectador com a produção.

Ao contrário do que a crítica especializada vem dizendo, a atuação de Ralph Fiennes não é espetacular. Sim, é muito bem feita, mas nada além disso. No início, ele interpreta um personagem contido, centrado e que após desvendar o motivo da morte de sua esposa, se torna passional, estado que até então era praticamente inexistente para o jardineiro. O resultado de sua atuação não é culpa do ator, mas sim do próprio personagem, que não tem um apego com o espectador. Qualquer filme de ação ou suspense que se preze, deve possuir um protagonista carismático, do contrário a platéia não vai conseguir se envolver tanto com seus problemas. Entretanto, o que merece ser destacado é a interpretação de Rachel Weisz. Ela entrega tanta energia e vigor a sua personagem, que se torna difícil não se importar com a sua preocupação com a situação decadente que a África vivencia atualmente.

É aí que está o já mencionado problema de O Jardineiro Fiel. O filme não deveria apostar a sua força em Justin, e sim, em Tess, a personagem que teria maior apego com o público que, ironicamente, morre no início da produção. Podemos perceber que o fiel do título não deveria pertencer ao jardineiro, e sim ao diretor que seguiu o livro com muita fidelidade. Deve-se acrescentar também que Cidade de Deus foi considerado uma das melhores recriações brasileira. Torcemos para que o próximo projeto de Meirelles não seja mais uma adaptação.

O Jardineiro Fiel
The Constant Gardener

Inglaterra, 2005
Drama

(por Marco Paiva em 2005)

Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Jeffrey Caine

Elenco:
Justin Quayle (Ralph Fiennes)
Tessa (Rachel Weisz)
Sandy (Danny Huston)
Arnold Bluhm (Hubert Koundé)
Kenneth Curtiss (Gerard McSorley)
Marcus Lorbeer (Pete Postlethwaite)

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