Homens como ratos

Filme de Scorsese é regado a personagens de caráter duvidoso que o auxiliam na produção de mais um excelente longa


Quando se fala em filme da máfia, o nome de Martin Scorsese surge na cabeça de muitos cinéfilos. Responsável por clássicos como Os Bons Companheiros e Cassino, o cineasta retorna aos bons tempos conduzindo Os Infiltrados. Adaptado por William Monahan do asiático Conflitos Internos, o diretor lidava com um grande problema: o que poderia fazer para tornar a sua produção tão boa quanto o filme de Hong Kong? Obviamente, Scorsese conseguiu responder esta pergunta, já que o longa é ainda melhor que o seu predecessor.

Billy (Leonardo DiCaprio) e Colin (Matt Damon) estudaram para integrar o Departamento Estadual de Polícia de Massachusetts. O que acontece com ambos, porém, é diferente: enquanto o primeiro aceita ser usado como isca em uma máfia irlandesa, o segundo é um ladrão infiltrado, pupilo do chefe dessa mesma organização, o poderoso Costello (Jack Nicholson). O que resta a seguir é uma competição cruel que simula o melhor jogo de “gato e rato”.

Parte do trunfo do filme é o seu ótimo elenco. Do explosivo Mark Wahlberg até a vulnerável Vera Farmiga, os intérpretes da produção mergulham completamente em seus papéis. DiCaprio está perfeito como o desesperado Billy Costigan. O ator, que opta por incrementar paranóia e nervosismo em sua composição, transmite a idéia de que seu personagem vive em um constante ataque de nervos. Seu medo de que seja reconhecido como um infiltrado é de surpreender a platéia. Pode-se entender o motivo que esse seu desempenho seja tão lembrado nas premiações. Nicholson, apesar de sempre acrescentar maneirismos em suas atuações, acerta em cheio na criação de Costello. O personagem parece ter sido criado especialmente para o ator.

Damon também acerta na sua interpretação, mas, ao contrário dos outros, não é lembrado por nenhuma premiação. Para alguns, o personagem do ator é menos exposto ao crime do que DiCaprio e Nicholson e, por isso, mais fácil de ser interpretado. Mas bastam algumas seqüências - como aquela em que é perseguido por Billy, ou nas inúmeras conversas com Costello – para perceber o talento do ator que surpreendeu em Syriana, ano passado. É uma grande injustiça que uma atuação tão forte e sutil como essa, seja tão esquecida pelos críticos.

Os únicos pesares do filme envolvem Costello. A seqüência inicial, que insiste em esconder a cara do personagem, soa clichê e ineficiente – se ela fosse mais curta, a seqüência seria perfeita. Contudo, é completamente inverossímil que uma sombra persiga o personagem durante uma conversa no bar e no carro. Também é decepcionante sua saída de cena: uma mais elaborada e digna do personagem, seria o ideal.

Utilizando os seus tradicionais travellings e planos-seqüências (além da ótima tomada final, em que compara seus personagens a ratos), Scorsese prova que ainda é o mesmo diretor de obras-primas. E nós acreditamos Sr. Martin.

Os Infiltrados
The Departed

EUA, 2006
Policial

(por Marco Paiva em 2007)

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: William Monahan

Elenco:
Leonardo DiCaprio (Billy Costigan)
Matt Damon (Colin Sullivan)
Jack Nicholson (Frank Costello)
Martin Sheen (Queenan)
Mark Wahlberg (Dignam)
Vera Farmiga (Madeleine)
Anthony Anderson (Brown)
Ray Winstone (Mr. French)
Alec Baldwin (Ellerby)

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