Ser e não ser

Ficção de Michael Bay surpreende as baixas expectativas, e se mostra um agradável relato sobre a natureza humana


Um dos fatores que auxiliam no sucesso de um filme é a polêmica que eles causam. Menina de Ouro é um bom exemplo dessa tática. Essas polêmicas podem envolver tanto o preconceito, como a ética dos espectadores. E é exatamente isso o que ocorre em A Ilha. Em sua primeira metade, o filme apresenta um tema curioso e interessante e consegue aprofunda-lo muito bem, lembrando até o livro Admirável Mundo Novo, escrito pelo visionário Aldous Huxley na década de 30. O pesar desta produção fica por conta das incansáveis cenas de ação que, além de não serem originais, tornam-se cansativas e nada empolgantes, eliminando o forte potencial do filme.

Lincoln 6 Echo, interpretado por Ewan McGregor, é um dos sobreviventes de uma contaminação global. Todos aqueles que conseguiram se salvar moram em uma cidade extremamente controladora, onde todos usam roupas iguais, fazem dietas, realizam trabalhos leves e é proibida uma maior interação entre indivíduos de sexo oposto. O maior atrativo para eles é um sorteio que promove uma ida para a ilha do título. O único lugar no planeta que não foi contaminado. Porém, o que não se sabia é que a tal ilha não existe na verdade. Eles são clones, criados pelo único propósito de serem utilizados como repositórios de órgãos para seus clonados, que aqui recebe o nome de patrocinadores.

O início de A Ilha se mostra mais intrigante que outro filme de ficção científica da atualidade. Os métodos tomados pelo criador desse “centro médico” são relevantes para a época presente, já que nós vivemos em um mundo padronizado, e que todos procuram se portar de uma só maneira, ou agir de acordo com o que a mídia diz. No filme, essas técnicas surgem de modo aberto e evidente, mas indicam uma outra mensagem subliminar. Essa tática funciona para evidenciar a individualidade que nós estamos perdendo, além de mostrar que o homem está virando uma mercadoria genética, que é o grande mote do filme.

Infelizmente, a partir da descoberta do protagonista, o filme perde a sua força. Escorregando em clichês, piadas sem graças e seqüências de ação barata, a produção perde o desenvolvimento de sua premissa e é nessa hora em que percebemos a direção de Michael Bay. A câmera que não parece se fixar em um único foco e as constantes edições são marcas registradas desse cineasta que deveria se apegar à novas técnicas. Inclusive, o roteiro tem algumas falhas com o decorrer do filme. Como, por exemplo, o rastro de destruição que Lincoln e Jordan 2 Delta (Scarlett Johansson) deixam ao fugir dos guardas contratados pelo criador desse mundo novo. É impossível que a polícia não percebesse essa destruição toda e não descobrisse que, quem fez isso, estava usando o nome dela própria.

No entanto, a produção merece ser vista por trazer de volta aquela velha questão sobre a alma dos clones e os excessos cometidos pelos cientistas que já cruzaram a barreira ética. Pode soar batido, mas essas indagações combinam perfeitamente com A Ilha. Sem mencionar aquela que diz respeito à vida desses clones. Será que eles devem ser criados com o único intuito de prolongar a morte, como diz um dos personagens do filme? A produção aprofunda, mas apenas superficialmente, deixando para o espectador escolher o seu lado nessa polêmica.

A Ilha não é uma obra prima, mas cumpre com seu dever: mostrar que essa desconcertante história não é uma ilusão e está prestes a acontecer. Já que, de acordo com o avanço da ciência, não demorará muito para o homem se tornar um produto.

A Ilha
The Island

EUA, 2005
Ficção Científica

(por Marco Paiva em 2005)

Direção: Michael Bay
Roteiro: Roberto Orci e Caspian Tredwell-Owen

Elenco:
Lincoln 6 Echo (Ewan McGregor)
Jordan 2 Delta (Scarlett Johansson)
Albert Laurent (Djimon Hounson)
Merrick (Sean Bean)
McCord (Steve Buscemi)
Starkweather (Michael Clarke Duncan)
Jones 3 Eco (Ethan Phillips)

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