Disputa pelo controle

Spielberg prova que ainda possui sua aptidão para blockbusters, mas perde pontos por render-se a um clímax banal


Se no passado, Steven Spielberg foi visto como um brilhante cineasta por ter dirigido filmes como E.T. e Tubarão, atualmente é também criador de filmes considerados dispensáveis, como Prenda-Me Se For Capaz e O Terminal. Sua nova produção, Guerra dos Mundos, é o intermediário entre esses dois tipos de filmes.
O filme inicia com a narração de Morgan Freeman e logo depois somos apresentados ao personagem de Tom Cruise. Após um tempo, pode-se perceber o questionável comportamento paterno de Ray Ferrier. Sua família não confia nele. Dessa maneira, a intimidade que Ray tenta ter com seus filhos se torna utópica. Por isso que nos momentos de guerra, os filhos subsidiam um ao outro, enquanto o pai apenas observa.

Aliás, como o personagem de Tim Robbins menciona em uma passagem do filme, o que acontece não é uma guerra, e sim um extermínio. Não dá para combater alienígenas cuja tecnologia se encontra em nível tão avançado a ponto de esconder uma nave em baixo de nós sem que percebamos. Para deixar o espectador completamente atônito com a eficiência dessas máquinas de destruição, o cineasta toma precaução para que todas as cenas que envolvam os Trípodes sejam perfeitas. Com destaque para o primeiro ataque em que a cautelosa construção da cena e a veemência com que os atores reagem aos seres fazem com que ela soe mais surpreendente.

Para aplicar mais veracidade na história, as proporções catastróficas que são representadas no filme são de intensa dramaticidade. O desespero provocado nos humanos é algo bastante explorado. A cena em que Rachel (Dakota Fanning) vê cadáveres boiando no rio; a seqüência da gaiola, onde as pessoas são aprisionadas chocam o espectador. Mas a cena em que o horror é de maior impacto é quando os refugiados lutam por mais alguns minutos de vida. Como o carro de Ray é o único que funciona na cidade inteira, todos os habitantes o querem para si como se pudessem ser salvos da iminente destruição. Essa brilhante situação funciona como uma crítica engajada de que a maior ameaça para o homem é ele próprio.

Infelizmente, Spielberg escolhe técnicas para o desfecho de Guerra dos Mundos que, lamentavelmente, o desmerece - até então o filme parecia um de seus melhores trabalhos. A falha cometida pelos alienígenas soa tão banal que não convence. Aliás, o filme tem vários deslizes: Em uma das cenas, as pessoas salvam Cruise de ser pego pelos alienígenas e depois de caírem de uma altura gigantesca, uma árvore seca cheia de galhos amortece a queda e eles sobrevivem. Sem contar com o retorno indesculpável de um dos personagens.

Incrível que mesmo depois de ter chocado o público durante o filme, Spielberg se acovarda nos minutos finais de Guerra dos Mundos. O resultado seria melhor se percebêssemos que o confronto intergaláctico trouxe conseqüências para a família do protagonista, assim poderíamos sentir a perda e torcer para que não passássemos pelo mesmo sofrimento. Se Spielberg ousasse um pouco mais, o filme seria tão bom quanto as suas antigas criações. Vejamos se ele corrige seus erros nos próximos filmes...

Guerra dos Mundos
War of the Worlds

EUA, 2005
Ação

(por Marco Paiva em 2005)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp

Elenco:
Ray Ferrier (Tom Cruise)
Robbie Ferrier (Justin Chatwin)
Rachel Ferrier (Dakota Fanning)
Ogilvy (Tim Robbins)
Mary Ann Ferriee (Miranda Otto)

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