O amanhã de hoje

Drama aposta em um futuro assustador para chocar a sociedade atual sobre a emergência da situação


Imaginar o futuro não é um artifício original tanto no meio literário, quanto no cinematográfico. Desde o escritor britânico Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo até desenhos animados, fantasiar sobre como será a vida daqui a alguns anos é sempre instigante. Porém, nem sempre o futuro imaginado é o ideal. A produção Filhos da Esperança aposta nessa afirmação. Adaptado por Alfonso Cuarón do livro de Timothy J. Sexton, o filme não possui carros voadores, robôs e apetrechos eletrônicos: é acinzentado e sujo devido às guerrilhas urbanas.

O motivo desse caos é a perda da capacidade de reprodução. Não se sabe como e nem o motivo, mas as mulheres não conseguem mais engravidar. Para se ter uma noção da gravidade da situação, o ser mais novo de todo o planeta morreu aos 18 anos assassinado por uma fã. Enquanto alguns ingleses tentam manter seu país em ordem, outros procuram manter a sobrevivência da espécie (Julianne Moore). Também há espaço para aqueles que preferem evitar o assunto, como Theo (interpretado incrivelmente pelo Clive Owen). Mas quando recebe a tarefa de escoltar a única mulher grávida, o britânico começa a refletir sobre a situação atual.

Um dos trunfos do filme é a excepcional direção de Cuarón. Responsável pelo notável E Sua Mãe Também e do interessante Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, o cineasta aposta em longos planos, como aquele em que conversam dentro do carro para depois sair dele – isto tudo sem nenhum corte. Há também outros artifícios utilizados pelo diretor: a câmera suja de sangue durante uma das guerrilhas, e uma magnífica coordenação de atores e figurantes no terço final do filme que culmina em uma das cenas mais emocionantes da história do cinema.

O elenco é outro ponto positivo do filme. O veterano Michael Caine traz afeto e carinho para o agradável Jasper, a novata Clare Hope Ashitey integra força e vulnerabilidade para a composição de sua amargurada Kee e Moore brilha em sua breve aparição. Mas quem merece os louros é o britânico Clive Owen. Nos momentos em que Kee sente-se vulnerável, podemos perceber apenas pelo olhar que Theo se sente inseguro quanto a sua missão – e mesmo quando tem que tomar as rédeas da situação, ele hesita. Interessante notar que, para quebrar com o estigma de herói, Theo se machuca com as conseqüências dos conflitos, provando que é um humano que está naquela situação.

A maravilhosa fotografia criada com maestria pelo Emmanuel Lubezki, de O Novo Mundo, somada à engenhosa direção de arte são responsáveis por demonstrar com eficiência o mundo caótico em que a sociedade se encontra: grades que separam o motorista de ônibus dos passageiros, exposição de animais em praça pública, pichações e falta de higiene.

Por isso que muitos classificam Filhos da Esperança como uma produção urgente. Se a humanidade continuar com o egocentrismo que impera atualmente, e se os interesses de grandes empresas e corporações permanecerem as mesmas, o nosso futuro não será muito distante daquele previsto pelo filme.

Filhos da Esperança
Children of Men

EUA, 2006
Drama/Ação

(por Marco Paiva em 2007)

Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton

Elenco:
Clive Owen (Theo Faron)

Julianne Moore (Julian Taylor)
Michael Caine (Jasper Palmer)
Chiwetel Ejiofor (Luke)
Charlie Hunnam (Patric)
Claire-Hope Ashitey (Kee)
Pam Ferris (Miriam)
Danny Huston (Nigel)
Peter Mullan (Syd)

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