Amantes da moda

Se não fosse a carismática performance de Meryl Streep, O Diabo Veste Prada seria apenas um inocente, e dispensável, retrato do mundo da moda


Não há uma só pessoa que não tenha reclamado de seu trabalho. Seja o horário incômodo, ambiente desagradável ou um chefe detestável, as pessoas passam por essa fase, tendo em mente a sua evolução profissional. Este é o mote da comédia O Diabo Veste Prada. As implacáveis condições de trabalho que um indivíduo se submete em uma fase de sua vida são o que realmente conta nesta produção baseada no livro homônimo de Lauren Weisberger.

Andy Sachs (Anne Hathaway) é uma ingênua jornalista que consegue um trabalho em uma poderosa revista de moda, a Runway. Contudo, para se manter neste cargo, ela terá que lidar com as ordens e desordens de sua chefe, a cruel Miranda Priestly (Meryl Streep).

Streep, aliás, é o grande trunfo deste filme. O que poderia ter sido reduzido a uma atuação clichê e estereotipada, revela-se uma grande conquista. Streep utiliza a sensibilidade de uma Cruela Cruel e a simpatia de um Roberto Justus, e cobre tudo com traços de humanidade, criando fragilidade e vulnerabilidade.

Observe, por exemplo, a forma com que Miranda age nos corredores da Runway. Endeusada por todos, a personagem utiliza sarcasmo, crueldade, e uma irritante voz tranqüila, para mostrar a sua autoridade sem fazer esforço nenhum. Mas quando Andy vê Miranda em sua própria casa, a editora se sente nocauteada, totalmente exposta, pelo simples fato de ter sido vista em uma posição submissa com a qual não está acostumada.

Hathaway também consegue demonstrar seu talento. Após aceitar papéis mais densos, como em O Segredo de Brokeback Mountain e futuramente em Becoming Jane, a atriz aplica ingenuidade em sua personagem como uma forma de mostrar a sua inadequação neste venenoso ambiente. Com o decorrer do filme, por exemplo, pode-se perceber que a protagonista ainda acredita que é a mesma, embora tenha atitude, aparência e desejos diferentes. Emily Blunt e Stanley Tucci são outras surpresas do elenco.

O roteiro utiliza uma abordagem despretensiosa ao contar sobre o mundo da moda. Esqueça as críticas à ditadura da beleza, ou ao consumismo exacerbado da sociedade. O filme vive de piadas que simplesmente remetem a esse ambiente, como no momento em que a protagonista pede para soletrarem Dolce & Gabbana, ou quando uma das discípulas de Miranda dialoga sobre sua nova dieta: “Não como nada, e quando estou para desmaiar, eu como um queijo”. A pequena participação de Gisele Bündchen ajuda neste clima de auto-sátira.

Apesar de não possuir brilhantismos no roteiro, O Diabo Veste Prada se passa por uma leve diversão ocasional e por um veículo profissional que revela a incrível versatilidade de Meryl Streep. Como responde a própria atriz em uma entrevista, “Eu sempre digo [sobre as chances de ingressar em um filme], se não é divertido, então não faça”. Se divertir, e provar o seu talento. Não podia ser melhor para Streep.

O Diabo Veste Prada
The Devil Wears Prada

EUA, 2006
Comédia

(por Marco Paiva em 2006)

Direção: David Frankel
Roteiro: Aline Brosh

Elenco:
Miranda Priestly (Meryl Streep)
Andy Sachs (Anne Hathaway)
Emily (Emily Blunt)
Nigel (Stanley Tucci)
Nate (Adrian Grenier)
Christian Thompson (Simon Baker)
James Holt (Daniel Sunjata)

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