Drama
independente de Paul Haggis denuncia a hipocrisia da sociedade
e desconstrói estereótipos humanos
A produção roteirizada e dirigida por Paul Haggis
é ambientada em Los Angeles, mas bem que poderia ocorrer em
qualquer cidade metropolitana. Basta que nessa cidade haja
pessoas que, embora vivam juntas, vivem se colidindo ao menor
sinal de desconfiança. E é no aprofundamento dessa questão
que reside o forte potencial de Crash - No Limite.
Contando com um elenco de primeiríssima, o filme utiliza o
racismo existente nos EUA para desconstruir a natureza humana
de acordo com estereótipos, raças e credos. O longa demonstra
a hipocrisia que a nossa sociedade vive atualmente: a tolerância
que todos fingem ter, se destrói na primeira oportunidade
que aparece.
Tudo se inicia
com o assassinato de um jovem que irá unir a vida de diversas
pessoas. Como a da socialite e seu marido que, após terem
seu carro roubado por dois assaltantes negros, contratam um
chaveiro mexicano, que irá arrumar a maçaneta de uma mercearia
cujo dono é um persa. A história também envolverá um diretor
de um programa americano e sua esposa, um detetive negro e
um policial racista. E quando essas histórias se interligarem,
elas resultarão em ódio para alguns, desapontamento para outros,
ou até mesmo em alívio.
O interessante
na produção é que não há um personagem protagonista. As diversas
histórias paralelas não giram ao redor de um personagem, e
sim ao redor da mesma temática, o preconceito. E é nesse ponto
que o roteiro se torna mais atraente. Sem subestimar a inteligência
do espectador, as atitudes dos personagens se tornam tão plausíveis
que funcionam como um retrato da realidade. Jean
(personagem de Sandra Bullock) evidencia
boa parte da crítica do filme. Em um momento da trama, ela
se sente tão furiosa que acaba agredindo verbalmente o papel
de Michael Pena, o chaveiro Daniel.
Outro desempenho que merece destaque é do policial Ryan
(interpretado por Matt Dillon em seu melhor
momento). Responsável pela ofensa e humilhação que praticou
a muitos negros, em um determinado período da produção ele
salva a vida daquela que, justamente, o julgou da pior maneira
possível. Isto é, ele é um exemplo perfeito de que as pessoas
são capazes de atos desprezíveis e humanitários ao mesmo tempo.
Com atuações
brilhantes, um roteiro excepcional e uma direção segura, Crash
– No Limite desponta como umas das melhores produções
do ano (se não a melhor) e, sem dúvida alguma, o filme realmente
merece esse título. Depois de ganhar reconhecimento pela indicação
ao Oscar pelo roteiro de Menina de Ouro,
Haggis ganha ainda mais prestígio com essa sua pérola de valor
único. Se esse é só o seu segundo filme, o cineasta ainda
tem muito o que mostrar para o público. E também, muito o
que surpreender.
Crash
- No Limite
Crash
EUA, 2005
Drama
(por Marco Paiva em 2005)
Direção:
Paul Haggis Roteiro: Paul Haggis e Robert Moresco
Elenco:
Graham (Don Cheadle)
Ria (Jennifer Esposito)
Jean (Sandra Bullock)
Rick (Brendan Fraser)
Ryan (Matt Dillon)
Hanson (Ryan Phillipe)
Cameron (Terrence Howard)
Christine (Thandie Newton)
Daniel (Michael Pena)
Lara (Ashlyn Sanchez)
Peter (Larenz Tate)
Anthony (Chris ´Ludacris´ Bridges)
Farhad (Shaun Toub)
Dorri (Bahar Soomekh)
Shereen (Marina Sirtis)