Soneto cinematográfico

Romance de Alejandro Agresti soa tão poético e lírico como as inúmeras obras eternizadas no romantismo


“[...] E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

Vinícius de Moraes (Soneto da Fidelidade)

Uma das obras mais famosas de Vinícius de Moraes, o Soneto da Fidelidade trata de um assunto tão familiar à sociedade: o amor. O amor capaz de apagar os defeitos do parceiro e ressaltar as virtudes, capaz de sobreviver anos e anos, e até aquele capaz de juntar almas em uma situação aparentemente impossível.

Esse mesmo tipo de amor se faz presente no romance A Casa do Lago. Dirigido pelo argentino Alejandro Agresti, a produção resgata o clima do bom romance, aquele que foi esquecido com o passar dos anos, aquele que foi utilizado exaustivamente para dar vida às histórias insossas e batidas – salvas raras exceções como Antes do Amanhecer e sua continuação.

Kate (Sandra Bullock) é uma médica triste e solitária que se mudou faz pouco tempo da casa do lago. Alex (Keanu Reeves), um arquiteto com problemas familiares, é o novo morador da casa. Em um dia como outro qualquer, Alex lê uma carta deixada por Kate e se sente incomodado com um detalhe: em vez de a carta estar datada como sendo de 2004, o ano escrito é 2006. Decidido a corrigir o erro, ele responde perguntando o porquê da data errada. A médica estranha a resposta e diz que a data não está errada e que eles estão realmente em 2006. A partir de mais algumas respostas, os dois percebem que estão em épocas diferentes, mas mais juntos do que se imaginava.

Sem jamais cair no batido e sentimental, a produção ecoa um lirismo tão poético que parece ter sido feito à moda antiga, como os antigos e ingênuos romances cinematográficos. Parte desse feito se deve à direção romanceada de Agresti. Algumas seqüências, como aquela que mostra o casal sentado nos bancos de um parque, provam que o cineasta é capaz de dar vida as cartas dos protagonistas. Em um outro momento da trama, por exemplo, o casal está lendo as cartas e dividem o cenário em dois, mesclando as duas épocas e formando um diálogo temporal – chegando ao ponto de trocar olhares. Até mesmo Bullock e Reeves estão bem dirigidos. Ambos em uma atuação correta e contida, o oposto do que se via em sua última parceria, Velocidade Máxima.

Porém, nem tudo são flores para a produção: há alguns furos de roteiros (sempre existentes em filmes que apostam nas viagens temporais), as desnecessárias tramas paralelas, e a nada elegante edição. Mas a belíssima fotografia criada por Alar Kivilo e a apaixonante trilha de Rachel Portman, com destaque para as ótimas “This Never Happened Before” e “I Can´t Seem to Make You Mine”, passam por cima desses erros.

Depois de tantas produções decepcionantes, a presença de A Casa do Lago é um sopro de alívio e renovação em um gênero tão desgastado no mundo hollywoodiano. Um romance capaz de orgulhar aquela obra idealizada por Vinícius de Moraes: um romance capaz de ser infinito enquanto dura.

A Casa do Lago
The Lake House

EUA, 2006
Romance

(por Marco Paiva em 2006)

Direção: Alejandro Agresti
Roteiro: David Auburn

Elenco:
Alex Wyler (Keanu Reeves)
Kate Forster (Sandra Bullock)
Anna Klyczynski (Shoreh Aghdashloo)
Simon Wyler (Christopher Plummer)
Henry Wyler (Ebon Moss-Bachrach)
Mãe de Kate (Willeke van Ammelrooy)
Morgan (Dylan Walsh)
Mona (Lynn Collins)

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