Nem tudo é o que parece

Longa de Haneke revela-se subversivo ao remover a passividade do público e exigir um exercício mental em relação aos acontecimentos do filme


Assim que saí do cinema, ainda atordoado com o impacto do filme Cachê, não pude deixar de me sentir intrigado – como muitos devem ter se sentidos. A subjetividade escondida na produção de Michael Haneke é de se impressionar. Logo no início, o cineasta apresenta a nós uma imagem de uma casa. Mesmo com o início dos créditos de abertura, a imagem não muda e só depois percebemos que estamos vendo uma gravação, e não a casa “ao vivo”. Essa imagem voltaria a repetir diversas vezes, instigando o espectador a analisar mais o cotidiano do casal francês vivido por Daniel Auteuil e Juliette Binoche.

O filme, que traça uma análise sobre a culpa, é um fascinante relato sobre o poder e as limitações da câmera. Utilizando do terror psicológico, o cineasta destrói a imagem da platéia passiva, e as induz a pensar, discutir e questionar o que de fato ocorreu com o decorrer da película. O que demonstra apenas uma parcela do brilhantismo da produção.

Georges (Auteuil) e Anne (Binoche) são um casal parisiense ligados ao mundo literário: ele é um crítico com um programa de TV, enquanto que ela é uma editora. O casal mais o filho, Pierrot, parece ter o típico cotidiano de uma família de classe alta. Porém, a entrega de uma fita muito pertubadora transforma o dia-a-dia do casal deixando-os preocupados. Afinal, quem está filmando a fachada da casa? E, se a imagem da casa parece estar mais alta do que seria acessíval, como ela foi gravada? E porque estariam fazendo isso? Mostrar a vulnerabilidade do casal, deixando-os inseguros? Muitas perguntas que, assim como na vida real, nem sempre possui respostas.

Como a platéia pode perceber depois de algum tempo, o assunto de Cachê não é exclusivamente o suspense das fitas. A repressão francesa aos algerianos nos anos 60 é um dos motes do filme. Quando criança, Georges fez com que seu amigo de infância fosse vítima dessa repressão. Ele próprio simboliza o país, pelo fato de não se sentir culpado diante desse acontecimento – ele simboliza também, quando tenta atenuar essa culpa quando existente. Outra seqüência que revela essa conflituosa relação é quando o casal protagonista é quase atropelado por um ciclista negro. A agressividade verbal com que eles se confrontam só prova até que ponto chegou a cultura xenófoba francesa aos imigrantes, que se estendeu até as relações interpessoais.

Auteuil, assim como o diretor, está em sua maior forma. Utilizando a insegurança, Daniel percebe que Georges prefere priorizar as aparências em vez de tratar do assunto e escolhe utilizar uma entonação mais tranqüila, e desesperada quando necessária, para dar vida ao personagem. Binoche, com o personagem completamente oposto ao de Auteuil, brilha em mais uma performance. Anne, habituada com a segurança em que vive, é retirada do seu mundo à tapas, e passa a se sentir frágil e vulnerável nesse novo ambiente, chegando a desacreditar no caráter e integridade do marido.

Contudo, não pense que há um final para Cachê. Isto ficará por conta do espectador. O perigo iminente é transformado em paranóia, ou está mais perto de ocorrer do que se imagina? Gravaram as fitas para dar uma lição, ou para se vingar do personagem principal? O fato é que o ensaio minimalista de Haneke sobre as relações humanas não possui respostas específicas. Para o cineasta, é mais importante observar “o que ocorreu” do que “porque ocorreu?”. A causa nem sempre é mais interessante do que a conseqüência.

Cachê
Caché

França/Áustria, 2005
Drama/Suspense

(por Marco Paiva em 2006)

Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke

Elenco:
Georges Laurent (Daniel Auteuil)
Anne Laurent (Juliette Binoche|)
Majid (Maurice Bénichou)
Pierrot Laurent (Lester Makedonsky)
Filho de Majid (Walid Afkir)
Mãe de Georges (Annie Girardot)
Pierre (Daniel Duval)

Comente se você concorda ou não! |

 

 

Cotação: