Ambiciosa
produção de Iñárritu reflete a sua carreira sem originalidade:
histórias paralelas, pessoas sofredoras e ótimas atuações
Para muitos especialistas, a Teoria do Caos pode ser explicada
por meio do tradicional exemplo do Efeito Borboleta: o simples
bater de asas desse inseto é capaz de influenciar o curso
natural, podendo provocar um tufão do outro lado do mundo.
Em Babel, produção do cineasta mexicano
Alejandro Gonzáles Iñárritu, essa idéia é utilizada ao máximo.
As vidas de uma família marroquina, um casal americano, uma
babá mexicana e uma japonesa surda-muda são interligadas por
um simples ato, a venda de um rifle.
Responsáveis
pela segurança das cabras, duas crianças marroquinas são munidas
de um rifle pelo seu pai. Elas acabam acertando a turista
Susan (Cate Blanchett) quando testam até onde a bala alcança.
O seu marido, Richard (Brad Pitt), fica com a difícil tarefa
de conseguir uma ambulância para socorrê-la, já que não consegue
se comunicar com os outros habitantes da área. A babá dos
filhos do casal, Amélia (Adriana Barraza), descobre que não
tem com quem deixar os garotos e decide levá-los consigo para
o casamento do filho no México. Paralelo a essas histórias,
está a jovem Chieko (Rinko Kikuchi) que vive as agruras de
ser uma surda-muda adolescente.
Produções com
histórias paralelas não é uma novidade para Iñárritu. Seus
filmes anteriores utilizavam essa mesma premissa, porém com
muito mais cuidado e elaboração do que nesse último filme.
A edição pretensiosa de Douglas Crise e de Stephen Mirrione
aposta em uma desnecessária alteração da ordem cronológica
e em irônicas transposições de cenas, como aquela em que a
decapitação de uma galinha dá espaço para a ensangüentada
Susan. Isto é, nem os próprios realizadores parecem gostar
de seus personagens, o que pode ser fatídico para uma possível
identificação do público.
Outro fator
bastante falho é o roteiro irregular de Guilhermo Arriaga.
É seriamente duvidoso que uma imigrante ilegal, como Amélia,
arrisque tudo o que conseguiu no país apenas para atravessar
a fronteira com as crianças americanas. A idéia que fica é
que aquela história precisava ser contada, mesmo que não soe
nem um pouco verossímil.
A narrativa
de Chieko, por outro lado, consegue ser bastante eficiente
graças a Kikuchi. A forma que a jovem encontra para suprir
a incapacidade de falar e ouvir é a relação física, onde tudo
é transmitido através do toque. Não há palavra que substitua
a maravilha do tato, o calor da emoção e a sensação do prazer.
É decepcionante o fato de sua personagem estar em uma história
tão mal construída, muito aquém do que poderia ser. Com um
pouco mais de atenção e cuidado, Chieko poderia ter um filme
só seu.
Mesmo com a
performance reveladora de Rinko Kikuchi, a melhor história
é a de Marrocos. A família, isolada geograficamente, é alvo
de inúmeras denúncias, como a posse de armas para menores
e até a iniciação precoce da puberdade – por estarem isolados
de outros moradores, um dos garotos assiste sua própria irmã
se despir e se masturba pensando nela, atitudes que chocam
o seu irmão mais velho. Mesmo que não sejam atores profissionais,
a forma com que eles tratam seus personagens é de se impressionar.
Enquanto isso, os atores Pitt e Blanchett estão apenas medianos
em uma história mediana. O único fato a se destacar é a atenção
que Arriaga dá a prepotência norte-americana em classificar
como terrorismo qualquer acidente internacional.
A excelente
fotografia de Rodrigo Prieto, dono do trabalho excepcional
em Traffic, e a emocionante trilha
de Gustavo Santaolalla funcionam muito bem juntas. Mas a ambição
do diretor põe o trabalho a perder em alguns momentos, como
na seqüência em que Amélia encontra um antigo caso amoroso
descartável para a narrativa. Como cineasta, Iñárritu é um
excelente diretor de atores. Responsável pelas arrebatadoras
atuações de Gael Garcia Bernal, Sean Penn, Benício Del Toro,
Naomi Watts e agora Rinko Kikuchi, ele deveria se ater, exclusivamente,
a essa área.
Pode-se concluir
que inconsistência é um dos maiores defeitos do cineasta.
Responsável pelo excelente Amores Brutos,
do fraco 21 Gramas e agora do mediano
Babel, Iñárritu parece estar perdendo o seu talento e, se
não se reinventar logo, suas produções perigam ficar como
Amélia: bem intencionada, mas cheia de atitudes mau planejadas.